Mensagem de Dom Severino para o Dia do Trabalhador: Uma reflexão sobre o trabalho e a conscientização em tempos de pandemia

CNBB conclama a sociedade e os responsáveis pelos poderes públicos a se unirem pela prevenção e pelo combate à Covid-19
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Mensagem de Dom Severino para o Dia do Trabalhador: Uma reflexão sobre o trabalho e a conscientização em tempos de pandemia

“Saulo, Saulo, por que me persegues?

 Hoje, dia de São José Operário, iniciamos o mês de maio, mês mariano, mês das mães em tempos de calamidade política e de saúde. Nesse cenário, a leitura de hoje apresenta a conversão de Saulo, em apóstolo Paulo, o trabalhador no meio dos gentios, se tornou uma das colunas centrais do cristianismo.

Valorizamos os trabalhadores e trabalhadoras que buscam com dignidade, no trabalho, o sustento da vida, a demonstração de seus dons e talentos, a alegria de contribuir para a construção de um mundo melhor e mais justo e fraterno.

A ganância, o desprezo pela dignidade humana, a fome do lucro insaciável, as 16 horas de jornada de trabalho por dia. Em 1º de maio de 1886, acelerou a revolta dos trabalhadores contra tamanha escravidão da época.

Hoje, lembramos a bravura dessas pessoas que contribuíram para o equilíbrio da sociedade, oferecendo tempos de desenvolvimento, harmonia e progresso sem escravidão. A carta que a presidência da CNBB lançou para esse dia do trabalhador, inicia com o clamor do profeta Isaias, “Parai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem: buscai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Então, sim, podemos discutir” (Is 1,16b-18a).

Nos unimos a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, por meio do seu Conselho Episcopal Pastoral, queremos afirmar nossa comunhão com os pastores que guiam o nosso rebanho e somos unidos a eles e fieis a Deus. Não desprezamos aqueles que tem a missão de cuidar, de alertar, de contestar os falsos profetas que gritam em “nome próprio” e que vão contra as orientações da ciência e das pessoas sensatas na proteção da vida. Diz o texto da carta dos bispos do Brasil, unindo com mais de 150 entidades, “a hora é grave e clama por liderança ética, arrojada, humanística, que ecoe um pacto firmado por toda a sociedade, como compromisso e bússola para a superação da crise atual”. Diante da mais grave crise sanitária dos últimos tempos, com o sistema de saúde já entrando na fase de colapso, consideramos este momento dificílimo, que clama pelo efetivo exercício da solidariedade e da caridade. É tempo das palavras e atitudes serenas de paz, de fé e de esperança, de respeito às leis e à democracia. É com perplexidade e indignação que assistimos manifestações violentas contra as medidas de prevenção ao coronavírus; que ouvimos declarações enviesadas de desprezo pela vida, por parte de agentes públicos sobre a morte de milhares de brasileiros e brasileiras contaminados pelo covid-19; que vimos acontecer eventos atentatórios à ordem constitucional, com a participação de autoridades públicas, onde se defendeu o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, a volta do AI-5 e o retorno aos sombrios tempos da ditadura; que todo o Brasil soube de denúncias acerca da politização da justiça, ferindo sua necessária autonomia de investigação.

A Doutrina Social da Igreja ensina, com clareza a intocável harmonia e cooperação entre os Poderes, base constitutiva da República, garantia do Estado Democrático de
Direito, o princípio de que “é preferível que cada poder seja equilibrado por outros poderes e outras esferas de competência que o mantenham no seu justo limite. Este é o princípio do ‘Estado de direito’, no qual é soberana a lei, e não a vontade arbitrária dos homens. ” (CDSI, 408).

Portanto, buscar soluções para os problemas do Brasil fora da institucionalidade democrática e em confronto com os poderes da República, coloca em risco a democracia e a integridade do povo brasileiro. Nessa perspectiva, não são toleráveis as manifestações sociais que atentam contra a Constituição, assim como não é tolerável que qualquer autoridade viole os preceitos constitucionais e despreze a vida. Espera-se das instituições republicanas, garantidoras do Estado de direito, a devida responsabilização dos que atentam contra a ordem democrática. Reiterando o posicionamento contido no “Pacto pela Vida e pelo Brasil”, a CNBB conclama a sociedade e os responsáveis pelos poderes públicos a se libertarem dos vírus mortais da discórdia, da violência, do ódio e a se unirem no único confronto que a todos nos interessa nesse momento: a prevenção e o combate à Covid-19, em defesa da vida, especialmente a dos mais pobres e vulneráveis.

O cuidado da saúde das pessoas e da economia são fundamentais para a garantia da vida em sua plenitude e não se opõem. Na perspectiva da Doutrina Social da Igreja, a economia está a serviço da vida: “o princípio da destinação universal dos bens convida a cultivar uma visão da economia inspirada em valores morais que permitam nunca perder de vista nem a origem, nem a finalidade de tais bens, de modo a realizar um mundo equitativo e solidário, em que a formação da riqueza possa assumir uma função positiva.” (CDSI, 174).

Diante de tudo isso, o que devemos fazer?

A força motora que nos move para as boas ações é a fé e a esperança.

Cultivemos os momentos de oração, de intimidade com Deus. Peçamos luzes, inspiração ao Espírito Santo e fomentemos a meditação da Palavra de Deus.

Não sigamos as pessoas que desestimulam a prática do distanciamento social. Estes estão a serviço do genocídio.

Procuremos atualizar o conhecimento da vida eclesial, os serviços, os grupos de reflexão, os grupos de amigos de Jesus, as pastorais, os organismos, os movimentos de Igreja e outros.

Apoiemos, a partir da prática da fé e da solidariedade os organismos e organizações da sociedade: sindicatos, cooperativas, associações, movimentos dos agricultores e dos sem-terra, das associações de bairros para construir uma sociedade madura e democrática sem exploradores e explorados.

Que tenhamos paciência e aguardemos o momento certo para voltar a prática dos cultos e celebrações litúrgicas com segurança e liberdade.

Sigamos rigorosamente as orientações dos cientistas e a Organização Mundial da Saúde.

Cultivemos a prática do bom uso dos meios de comunicação, as redes sociais para a verdade, e somente para a verdade.

Que São José Operário, proteja todos os trabalhadores e trabalhadoras.

Que Nossa Senhora, feita mãe da Igreja, pela obra do Espírito Santo, nos cubra com seu manto e tenhamos dias melhores e superemos a pandemia que já matou milhares de pessoas.

Com a reza do Rosário, sejamos cuidadores da vida e não causadores de novas infecções, por querermos satisfazer nossas próprias vontades, esquecendo que podemos ser responsáveis pela morte de nossos irmãos e irmãs.

 

Dom Frei Severino Clasen, ofm

Bispo Diocesano de Caçador

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